A rotina de uma UTI é complexa e exige atenção. No entanto é exatamente no calor do plantão, em meio a dezenas de tarefas e burocracias, que alguns vícios de rotina se instalam.
Ao entrar no box de um paciente grave, o “piloto automático” pode ser o seu maior inimigo. Aqui no Clube UTI, sabemos que o aprimoramento contínuo salva vidas. Por isso, listamos 4 erros comuns que muitos profissionais cometem ao avaliar um paciente no leito e como evitá-los.

1. Confiar apenas no monitor e não examinar o paciente
Existe um mantra clássico na medicina intensiva: “Trate o paciente, não o monitor.” Ao entrar no box, é tentador olhar direto para a tela, ver uma frequência cardíaca normal, uma saturação de 98% e presumir que está tudo bem. O erro aqui é ignorar a clínica. Um oxímetro de pulso pode não ler adequadamente em um paciente com má perfusão periférica, ou um traçado de ECG pode estar com artefatos de movimento.
O exame físico à beira-leito é soberano. Avalie o tempo de enchimento capilar, a temperatura das extremidades (moteamento), o padrão respiratório, o uso de musculatura acessória e o nível de consciência. Uma saturação “linda” no monitor não descarta um paciente em iminência de fadiga respiratória severa.
2. Não conferir as diluições das bombas de infusão
Acreditar cegamente no rótulo que a equipe anterior deixou ou assumir que a diluição segue o padrão geral da unidade sem checar a prescrição e a bomba de infusão é uma armadilha perigosa. Drogas vasoativas e sedativos têm margens terapêuticas estreitas.
Um exemplo clássico e perigoso envolve o Midazolam. Dose de sedação contínua, para manter o paciente adaptado à ventilação mecânica, é muito diferente de dose para Status Epilepticus, em que o objetivo é suprimir a atividade elétrica cerebral refratária rapidamente. Para evitar sobrecarga de volume no paciente neurológico, muitas vezes a droga corre pura ou em concentrações muito mais altas. Quem prepara a droga nem sempre sabe disso.
Se você assume que a bomba de um paciente em status está com a diluição padrão de sedação e tenta fazer um bólus ou ajustar a dose pelo volume em mL/h sem conferir, você pode causar uma iatrogenia grave, administrando volume excessivo ou deixando um paciente em Status sem tratamento adequado.
3. Não reprogramar os alarmes do monitor de acordo com o paciente
A “fadiga de alarmes” é um problema real. Quando alarmes tocam o tempo todo sem motivo, a equipe passa a ignorá-los. O erro é deixar os limites de alarme no padrão de fábrica (ou do paciente anterior) e não individualizar os alvos terapêuticos.
Doenças diferentes exigem parâmetros diferentes:
- Pressão Arterial: Um paciente em choque séptico geralmente tem um alvo de Pressão Arterial Média (PAM) de 65 mmHg. Já um paciente com Traumatismo Cranioencefálico (TCE) grave pode precisar de uma PAM de 80 ou 90 mmHg, por exemplo, para garantir a Pressão de Perfusão Cerebral (PPC).
- Saturação de Oxigênio (SpO2): Pacientes sem patologia pulmonar prévia podem ter alarmes ajustados para maior ou igual a 92%. Em pacientes com DPOC retentores de CO2, o alvo tolerado (e desejado) pode ficar entre 88% e 92%. Um alarme apitando para uma saturação de 90% no DPOC só gera ruído desnecessário.
- Frequência Cardíaca: Um paciente com Fibrilação Atrial crônica tolerará frequências de até 110 bpm (controle leniente). Em contrapartida, um paciente com Síndrome Coronariana Aguda precisa de um controle rigoroso de frequência (idealmente até 70 bpm) para reduzir o consumo miocárdico de oxigênio.
4. Não higienizar as mãos
Pode parecer básico, mas a omissão da higienização das mãos continua sendo uma das principais causas de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS). Entrar no box, encostar na grade da cama, ajustar a bomba de infusão, tocar o paciente e sair para o próximo leito sem usar álcool em gel ou lavar as mãos com água e sabão quebra a barreira de segurança.
Lembre-se sempre dos 5 momentos para a higienização das mãos preconizados pela OMS: antes de tocar no paciente, antes de realizar procedimento limpo/asséptico, após risco de exposição a fluidos corporais, após tocar no paciente e após tocar nas superfícies próximas ao paciente.
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: ANVISA, 2017. Disponível em portal da ANVISA.
DEVLIN, J. W. et al. Clinical Practice Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 46, n. 9, p. e825-e873, 2018.
EVANS, L. et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, v. 47, n. 11, p. 1181-1247, 2021.
TRINKA, E. et al. A definition and classification of status epilepticus – Report of the ILAE Task Force on Classification of Status Epilepticus. Epilepsia, v. 56, n. 10, p. 1515-1523, 2015.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO Guidelines on Hand Hygiene in Health Care: First Global Patient Safety Challenge Clean Care is Safer Care. Geneva: World Health Organization, 2009.





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