Cicely Saunders (1918–2005) é universalmente reconhecida como a fundadora do movimento moderno de hospices, tendo transformado radicalmente a percepção e o tratamento de pacientes terminais no século XX. Sua contribuição mais crítica foi a formulação do conceito de “dor total”, que expandiu o cuidado clínico para além dos sintomas físicos, integrando as dimensões psicológica, social e espiritual do sofrimento humano. Ao unir, pela primeira vez, a assistência compassiva, o ensino acadêmico e a pesquisa clínica rigorosa, Saunders elevou os cuidados paliativos ao status de especialidade médica reconhecida. Sua trajetória é marcada por uma abordagem multidisciplinar única, tendo se qualificado como enfermeira, assistente social e médica para garantir que suas ideias sobre o manejo da dor e a dignidade no fim da vida fossem aceitas e implementadas pela comunidade médica global.

Trajetória Profissional e a Gênese de uma Missão
A trajetória de Cicely Saunders foi definida por uma determinação em ser “útil”, um impulso que a levou a abandonar seus estudos iniciais em Filosofia, Política e Economia (PPE) na Universidade de Oxford com o início da Segunda Guerra Mundial. Ela ingressou na enfermagem no St Thomas’ Hospital, qualificando-se em 1944. Contudo, uma lesão nas costas a forçou a abandonar a prática direta da enfermagem, levando-a a retornar a Oxford para concluir sua graduação e se especializar como assistente social médica (então denominada lady almoner).
Foi em sua atuação como assistente social no Archway Hospital, em 1945, que Saunders estabeleceu um vínculo profundo com David Tasma, um paciente polonês terminal. As conversas entre ambos sobre a necessidade de um lugar mais adequado para pessoas em sua condição tornaram-se emblemáticas em sua filosofia. Ao falecer em 1948, Tasma deixou para Saunders um legado de £500 e a profecia: “Deixe-me ser uma janela em sua casa”. Este evento foi o catalisador para o desenvolvimento de suas ideias sobre um cuidado especializado que aliasse o rigor médico à compaixão humana.
Diante da resistência da categoria médica às suas propostas inovadoras sobre o controle da dor, Saunders foi aconselhada a se tornar médica para que suas opiniões tivessem peso institucional. Ela ingressou na faculdade de medicina aos 33 anos, qualificando-se em 1957. A partir de 1958, por meio de uma bolsa de pesquisa no St Joseph’s Hospice, ela começou a sistematizar novos métodos de registro e controle de sintomas, desafiando a prática comum da época, na qual os pacientes eram forçados a esperar o retorno da dor para receber medicação.
O Paradigma da “Dor Total”
Introduzido formalmente em 1964, o termo “dor total” sintetiza a ética holística proposta por Saunders. O conceito argumenta que o sofrimento de uma pessoa que está morrendo é uma experiência esmagadora e multidimensional, composta por:
- Físico: Sintomas biológicos como dor, falta de ar, náuseas e constipação.
- Psicológico: Sofrimento emocional, depressão e ansiedade.
- Social: Questões práticas, perdas familiares e vulnerabilidades interdependentes.
- Espiritual: A busca por sentido e a necessidade de transcendência no final da vida.
A análise de Saunders revelou que não existe “dor intratável”. Ela defendia que, ao aliviar a dor física de forma eficaz — por meio de alívio contínuo e preventivo, em vez de reativo —, o sofrimento mental do paciente também era mitigado. Sua abordagem insistia que o paciente importa “até o último momento da vida” e que o objetivo dos cuidados não é apenas ajudar a morrer em paz, mas permitir que o indivíduo “viva até morrer”.
O Legado do St Christopher’s Hospice
Em 1967, Saunders fundou o St Christopher’s Hospice em Londres, consolidado como o primeiro hospice moderno do mundo. A instituição foi pioneira ao integrar, em um único ambiente, o controle de sintomas de especialistas, o cuidado compassivo, o ensino e a pesquisa clínica. Durante seus 34 anos como diretora médica e presidente, Saunders utilizou o St Christopher’s como uma base para disseminar padrões de excelência que influenciaram a criação de equipes de hospice em todo o mundo.
A importância de sua atuação acadêmica e política refletiu-se em 1987, quando o Royal College of Physicians reconheceu a Medicina Paliativa como uma nova especialidade médica. Saunders também fundou, em 2002, a Cicely Saunders International, visando ampliar a pesquisa para além do câncer, abrangendo doenças como esclerose lateral amiotrófica e sequelas de acidentes vasculares cerebrais. Em 2010, foi inaugurado o Cicely Saunders Institute no King’s College London, o primeiro centro do mundo construído especificamente para reunir pesquisadores, profissionais e professores em um ambiente multiprofissional dedicado aos cuidados paliativos.
Reconhecimento e Honrarias
A influência de Cicely Saunders é atestada por uma vasta produção bibliográfica, com mais de 85 publicações aclamadas globalmente e pela concessão de mais de 20 diplomas honorários. Seu impacto humanitário e médico foi reconhecido pelas mais altas esferas civis e religiosas.
Cicely Saunders faleceu em 2005, no próprio St Christopher’s Hospice que fundou. Seu legado permanece como a pedra angular dos cuidados paliativos contemporâneos, enfatizando que o testemunho do sofrimento e o acompanhamento amoroso são as formas mais radicais de cuidado médico.
Referências
WOOD, Joe. Cicely Saunders and Total Pain: Holism, Narrative and Silence at the End of Life. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2024.
DAME Cicely Saunders Biography. Cicely Saunders International, Londres.
DAME Cicely Saunders: A palliative care pioneer. King’s College London, Cicely Saunders Institute of Palliative Care, Policy & Rehabilitation, Londres.
DAME Cicely Saunders. PMC – PubMed Central, National Center for Biotechnology Information (NCBI), National Institutes of Health (NIH), Bethesda.

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